Laser

   O termo "LASER" é um acrônimo do inglês "Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation", e que em outras palavras, define um tipo especial de luz que emana alta energia e possui algumas características que a torna diferente das outras fontes luminosas, tanto artificiais quanto naturais. É uma luz monocromática (uma única cor), unidirecional (feixe luminoso não diverge), coerente (emitida de forma ordenada), e que libera grandes quantidades de energia.

   Os diferentes tipos de laser têm suas características de cor, intensidade energética e rítmo (pulsátil ou contínuo) de acordo com o meio que o gera (líquido, gasoso, cristal, semicondutor, etc.). O laser é produzido por um sistema que transmite energia (luminosa ou elétrica) a um meio físico eletricamente excitável que por sua vez seja capaz de transmitir esta energia amplificada sob a forma de luz.O primeiro laser inventado foi o de rubi, em 1960 na Califórnia pelo físico Theodore Maiman. A partir de então, uma infinidade de outros tipos de laser foram desenvolvidos, e hoje, podemos vê-los presentes em inúmeros segmentos da atividade humana. Na indústria, informática, astronomia, holografia, iluminação de shows artísticos, odontologia, medicina; em produtos eletro-eletrônicos, projetos aeronáuticos e espaciais, armamentos, etc.

  A medicina têm se beneficiado grandemente com esta revolucionária tecnologia. De todas as especialidades médicas, uma das que mais progressos e vantagens obteve com a utilização do laser, sem dúvida, foi a oftalmologia. As vantagens do laser na oftalmologia se fazem notórias devido ao olho ser um órgão com algumas estruturas transparentes que permitem a propagação e projeção do laser a quase todos os tecidos oculares. Assim sendo, o laser pode ser aplicado, tornando procedimentos que normalmente seriam invasivos (incisões, suturas, etc.), em procedimentos menos traumáticos. A interação do laser em organismos vivos varia de acordo com o tipo do laser e do tecido. Pode ocorrer fotocoagulação (aquecimento com consequente coagulação), fotodisrupção (rompimento por onda de choque), fotovaporização (aquecimento seguido de desidratação), e fotoablação (subtração por quebra de ligações inter-moleculares).

   São vários os tipos de lasers utilizados na oftalmologia, porém sua aplicação é restrita a um número limitado de patologias, ou seja, nem tudo se pode tratar com o laser. Alguns exames especializados em oftalmologia também utilizam o laser, como: o analisador de fibras nervosas, o topógrafo de papila, o oftalmoscópio de varredura, o microscópio confocal , etc. Um dos primeiros lasers utilizados na oftalmologia foi o laser de argônio. Este laser possui como principal interação tecidual a fotocoagulação, e é utilizado em cirurgias e patologias retinianas como: buracos e roturas retinianas para produzir uma espécie de "barreira" em torno destas aberturas de maneira a evitar que haja extensão das mesmas; na retinopatia diabética e hipertensiva, para eliminar áreas isquêmicas (que não estão recebendo oxigênio) e malformações vasculares; para destruir alguns tipos de tumores intra-oculares, quando visíveis e pequenos; em cirurgias de glaucoma crônico de ângulo aberto para abrir o ângulo por onde é drenado o líquido intra-ocular (humor aquoso) ou em glaucomas refratários, para destruir parcialmente a estrutura que produz o humor aquoso; para oclusão permanente do ponto lacrimal em casos de olho seco severo; na destruição de cílios anormalmente posicionados (triquíase, distiquíase); etc.

   O laser de diodo é utilizado em procedimentos de fotocoagulação transescleral, no tratamento de retinopatia da prematuridade e em outras aplicações semelhantes ao laser de argônio.

   O laser de Nd:YAG (cristal de granada-alumínio-ítrio-neodímio), age por fotodisrupção, e é usado, dentre outras coisas, para abrir a cápsula posterior, geralmente alguns meses após a cirurgia de catarata. A cápsula posterior é parte integrante do cristalino (onde estava a catarata) que geralmente é deixada após a cirurgia de catarata, para dar suporte à lente intra-ocular e ao humor vítreo (estrutura gelatinosa do olho). Com o passar do tempo esta cápsula pode perder a transparência, o que volta a dificultar a visão, fazendo-se portanto necessária sua remoção. Também é usado para alguns casos de glaucoma de ângulo fechado para se fazer uma comunicação entre a câmara anterior e posterior para baixar a pressão intra-ocular.

   O laser de Ho:YAG (cristal de granada-alumínio-ítrio-holmium), atua por fotocoagulação, é é utilizado para termoceratoplastia (correção de hipermetropia). O excimer laser de fluoreto de argônio é um dos lasers de maior precisão que se conhece. Antes de ser utilizado na Oftalmologia, era usado pela IBM para confecção de micro-circuitos impressos de computadores. Descoberto seu potencial de precisão e segurança, foi utilizado pela primeira vez em olhos humanos com finalidade de correção óptica em 1987, com excelentes resultados. O excimer laser interage no tecido por fotoablação. Produz uma subtração microscópica que resulta em remodelamento do perfil corneano. É usado para correção de miopia, astigmatismo, hipermetropia e opacidades corneanas superficiais.



    O laser de gás carbônico atua por fotovaporização e é usado para "resurfacing" cutâneo, uma espécie de remoção da pele antiga para promover a reposição por tecido novo. É utilizado geralmente nas cirurgias plásticas das pálpebras, face e pescoço, com finalidades estéticas. Alguns problemas oculares ainda permanecem sem possibilidade de utilização do laser para corrigí-los, tais como: pterígio (carne crescida), estrabismo (olhos vesgos), calázio e hordéolo (terçol), catarata, doenças do nervo óptico, opacificações profundas da córnea, algumas patologias retinianas, dentre outros. A cirurgia da catarata tem um aspecto peculiar que rotineiramente é alvo de confusão. Existe uma idéia popular erroneamente dominante que a cirurgia mais moderna em uso para a remoção da catarata é a realizada com laser. O método mais moderno e aceito universalmente para remoção da catarata denomina-se facoemulsificação, que é uma técnica que utiliza ultra-som, através de uma sonda que vibra em alta frequência, que fragmenta e aspira a catarata através de uma incisão menor que a realizada na cirurgia convencional.

   A utilização do laser para a cirurgia de catarata foi introduzida recentemente com o laser de Er:YAG (cristal de granada-alumínio-ítrio-érbio), cujo princípio é semelhante ao ultra-som e que a priori, não apresenta maiores vantagens em relação à facoemulsificação. Este laser encontra-se atualmente em fase de investigação científica, necessitando ainda de alguns aperfeiçoamentos, e por enquanto seu uso de rotina ainda não está aprovado. O facolaser, como é chamado, poderá vir a ser uma nova técnica para remoção da catarata, isto se não surgirem novas e mais promissoras tecnologias antes mesmo que ele se estabeleça.

   Outro equívoco frequente é o de achar que todos os lasers são iguais, isto é, o mesmo equipamento que trata doenças da retina, seja capaz de eliminar opacificações de cápsula e corrigir a miopia, por exemplo. Isto por enquanto não é possível rotineiramente. No entanto, uma nova geração de lasers começa a ser desenvolvida, os de frequência múltipla, ou seja, um único equipamento poderá ter mais de um tipo de interação com os tecidos, basta para isto selecionar-se no aparelho a frequência desejada.
Em um futuro não muito distante, em vista da constante e rápida evolução das tecnologias, talvez os mitos de hoje tornem-se a verdade de amanhã.


Dr. Roberto Carlei - Médico oftalmologista em Belém – PA